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Saúde mental vamos cuidar da sua?

De maneira geral as pessoas creem que o tema saúde mental seja de interesse exclusivo de loucos e seus familiares, e como eles não são nem uma coisa nem outra desistirão deste artigo antes de chegar aqui neste ponto onde você está.

Ora, mas não está certo pensar assim, já que saúde mental é o inverso de doença mental?

A resposta para essa pergunta é um categórico NÃO. Importantíssimo deixar isso claro.

Uma pessoa com um diagnóstico de doença mental é uma pessoa psicótica (louca, no linguajar popular) – alguém com diagnóstico de esquizofrenia, por exemplo. E aqui é o ponto da confusão. Veja: não ter um diagnóstico de doença mental não faz de mim uma pessoa necessariamente detentora de saúde mental.

Vamos avançar um pouco para deixar isso mais claro.

Saúde mental é algo que, numa afirmação talvez impactante para a maioria, nenhum de nós desfruta plenamente. Todos somos, a princípio, neuróticos que sofrem de mal-estares mentais em menor ou maior grau; mal-estares de várias gradações, desde os que só incomodam um pouco aos mais graves que deixam a pessoa praticamente incapacitada para uma vida funcional.

Voltemos lá atrás para ver onde isso começa.

No começo do século passado, idos de 1900, Sigmund Freud, um médico vienense, criou a partir dos seus estudos da psique humana um método que permitia que uma pessoa com quaisquer mal-estares mentais se submetesse  a uma conversa com ele, numa sala fechada onde haveria só os dois e ninguém mais para testemunhar, e pudesse ali naquela privacidade lhe contar o que viesse à cabeça, livremente, de forma a permitir que Freud, a partir da técnica de escuta que ele havia criado, conseguisse interpretar os conteúdos do que a pessoa dizia – e do que não dizia. Estava criado o procedimento terapêutico que atravessaria o mundo e seria a base de toda a psicologia clínica moderna: a escuta individual e privativa.

E quem eram essas pessoas que procuravam o doutor Freud? Não eram os loucos, como você já pode ter percebido, mas os donos de um padrão psíquico que Freud chamou de padrão neurótico. Para Sigmund Freud, todos somos neuróticos – à exceção dos psicóticos, conforme explicado no início.

Pronto. Estava decretada ali a não-normalidade de todo mundo, incluindo eu e você. Em certa medida, essa reflexão faz com que tenhamos que admitir como legítima aquela máxima popular que diz que “de perto ninguém é normal”.

Mas será verdade que somos todos neuróticos?

O que Freud percebeu há 120 anos é que o homem moderno é fruto de uma civilização socialmente organizada ao redor de regras bastante rígidas de convivência familiar, social, comportamento sexual, determinações religiosas, entre tantas outras, e já na mais tenra idade uma criança deste mundo dito civilizado é submetida a uma enxurrada de legislações e exigências, de não-podes de toda espécie que redundam na impossibilidades da realização de seus desejos. Esse tsunami de repressões e proibições a arremessam lá na idade adulta cheia de dores e mal-estares psíquicos. E como lidar com esse manco existir num mundo autoritário e opressor? Muito difícil... O resultado de toda essa repressão é um subproduto, uma massa  amorfa de material reprimido que vai se acumulando num porão fechado da alma, espaço psíquico que Freud chamou de inconsciente, uma parte da gente escondida e inacessível de nós mesmos. Lá está o que você desejou e não pode realizar, o que doeu, o que frustrou, o que feriu, assustou ou o entristeceu profundamente. É um lugar sem portas, sem janelas e cuja chave do alçapão não temos. E de repente, em certo momento da vida, percebemos que por debaixo daquela porta saem insetos peçonhentos, ouvem-se gritos horríveis e uma fumaça escura brota pelas frestas e traz um cheiro ruim...

Que acha de dar um jeito de entrar lá, iluminar e ventilar aquilo tudo, jogar fora o que não se precisa e rearranjar as coisas de uma maneira minimamente aceitável? Não é tarefa fácil nem rápida, mas sabemos como fazer e podemos te ajudar.

É isso que significa cuidar da saúde mental. Vamos cuidar da sua?

 

(Lilian Tavares - Psicóloga)